26.9.17

Projeto original do Palácio de Santa Cruz. Rio de Janeiro - RJ.


Assim como publicado na página no dia 05 de Setembro, projeto de autoria do arquiteto inglês John Johnson, contratado no governo do Rei Dom João VI para fazer a ampliação e reforma do Palácio da Quinta da Boa Vista. Em 1817, como registrou o pintor austríaco Thomas Ender, o Palácio Real de Santa Cruz também passa por reformas e ampliações, mas o projeto do arquiteto inglês não foi levado em consideração.

Nosso seguidor e colaborador, Arquiteto e Urbanista Fabio Marqueoli fez uma representação fiel do Imperial Palácio de Santa Cruz e simulou caso o projeto tivesse levado em consideração. O Jardim do palácio foi inspirado nos jardins de Palácio da Quinta da Boa Vista, Petrópolis, Guanabara e Queluz (Portugal). Fonte: Antigo Santa Cruz

20.9.17

Memória de Santa Cruz. Em comemoração aos 450 anos do Bairro. Venha participar!


Exposição de fotos, venda de livros sobre o Bairro, bate papo com professores, pesquisadores, fotógrafos, jornalistas e estudantes de História. Faça já sua reserva!

Edição 123 Jornal O Quarteirão do NOPH Ecomuseu



A edição 123 do Jornal O Quarteirão do NOPH Ecomuseu deste ano já está disponível trazendo artigos interessantes que comemoram o 450º aniversário do bairro de Santa Cruz. Clique no link abaixo da imagem para ler e baixar as páginas no formato pdf. Não esqueça de deixar também o seu comentário aqui no blog.

10.9.17

A arte do MESTRE Saul sendo divulgada na página do Extra e Globo de 02/09/2017


Santa Cruz completando 450 anos e ele aos 79 anos trazendo para as instalações do Santa Cruz Shopping a história do bairro em lindas telas que retratam também a sua história, pois algumas delas foram pintadas ao longo de sua existência. 

São 13 telas de pontos importantes de Santa Cruz que se juntam a outras obras criadas por ele. Como a verdadeira escultura de Zumbi que está em Brasília, o painel principal das instalações atuais do bloco Cordão da Bola Preta, a escultura do cantor Adelino Moreira, etc. Vamos prestigiar esta exposição e deixar seu recadinho para ele no livro de presença. Isto faz um bem.
Foi um prazer ter ido dar um abraço no mestre e fotografar sua exposição. Parabéns Santa Cruz Shopping por estar de braços abertos para a cultura, dando oportunidades aos artistas da nossa Zona Oeste!


















Texto de Malu Ravagnani
Divulgação Cultural - Há 15 anos divulgando a arte e a cultura.
RJ, 2/9/2017.

22.8.17

Sepetiba em 1827, numa aquarela de Jean-Baptiste Debret



No panorama da imagem, temos uma visão da Baía de Sepetiba, da Serra da Coroa Grande e de Itacuruçá, e também da pequena vila dos pescadores, no canto direito. Temos também uma vista da ilha da Pescaria, e atualmente encontramos junto ao continente, duas ilhas e um pontal'.

História.

O nome Sepetiba, tem origem na língua tupi 'çape-tyba ou çape-tyva', significando "muito sapê".

As praias de Sepetiba serviam como porto colonial para exportação de pau-brasil a Europa. Seu principais acessos eram o caminho de Sepetiba (atual estrada de Sepetiba), que levava à Santa Cruz, e o caminho de Piahy (atual estrada do Piaí), que ligava o bairro à Pedra de Guaratiba. A partir de 1589, era parte da Fazenda de Santa Cruz dos Jesuítas, até o ano da expulsão dos padres da companhia de Jesus, em 1759. Logo em seguida, as terras passaram a fazer parte da Coroa Portuguesa (Fazenda Real de Santa Cruz) e o restante dos terrenos começaram a serem vendidos para novos sesmeiros. Em 1800, a paragem de Sepetiba era conhecida como 'Fazenda do Piahy', plantava cana de açúcar, e era resultado do desmembramento da grande Fazenda dos Jesuítas.

Ao decorrer do século XIX, Sepetiba passou a ser frequentada no verão pela Família Real, que utilizava a propriedade para o lazer da elite, como touradas, saraus e danças portuguesas. Com a implantação da “Companhia Ferro Carril”, em 1884, o bonde de tração animal passou a transportar a “mala real” até o cais de Sepetiba, além de cargas e passageiros.

A luz elétrica chega a Sepetiba em 1949 e, de lá para cá, Sepetiba se expande. Muitos loteamentos foram ocupando as áreas próximas à estrada do Piai, a praça Oscar Rossin foi urbanizada e foi aberto o canal na Rua Santa Ursulina para escoar terrenos alagadiços. Na década de 1960, surge o loteamento “Vila Balneário Globo” e, recentemente, em meio à grande polêmica, destaca-se a implantação, ao longo da estrada de Sepetiba, do grande conjunto Nova Sepetiba, construído em 1999 pelo governo do estado para a população de baixa renda.

Recentemente em 2011, foi feito um aterro na praia de Sepetiba na tentativa de recuperar o balneário, pois o esgoto e o excesso de lodo, acabou afastando os frequentadores. E mesmo assim Sepetiba e sua população ainda continuam esquecidas pelo poder público.

Pesquisa de Adinalzir Pereira Lamego.        

Bibliografia Básica:
FREITAS, Benedicto. O Matadouro de Santa Cruz. Cem anos a serviço de uma comunidade. Folha Carioca Editora, Rio de Janeiro, 1977.
FREITAS, Benedicto. Santa Cruz, Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, Volume I, Era Jesuítica 1567-1759. Asa Artes Gráficas, Rio de Janeiro/ 1985.
FREITAS, Benedicto. Santa Cruz, Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, Volume II, Vice-Reís e Reinado 1760-1821. Asa Artes Gráficas, Rio de Janeiro, 1987.
FREITAS, Benedicto. Santa Cruz, Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, Volume IIl, Impérío 1822-1889. Folha Carioca Editora, Rio de Janeiro, 1987.
MANSUR, André Luís. O Velho Oeste Carioca: História da ocupação da Zona Oeste do Rio de Janeiro (de Deodoro a Sepetiba), do século XVI ao XXI. Editora Ibis Libris: Rio de Janeiro, 2008.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sepetiba
https://www.facebook.com/EspecialRioAntigo/
Imagem do Professor Sinvaldo Souza. Edição de Foto Cleydson Garcia.

15.7.17

Nilton Bravo (1937-2005), O Michelangelo dos Botequins


Um dos painéis de Nilton Bravo tombado pela Prefeitura no Bar Sulista, na Praça Coronel Assunção, 357 (Gamboa)
Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai  as técnicas de pintura.

Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas.

Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas – se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo.

Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.

Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):

"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.

Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.

Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.

Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.

Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."

Belmonte de Copacabana, o último painel de Bravo, especialmente encomendado, infelizmente já removido.

"Nilton Bravo", crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67:

Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.

Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.

Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.

Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.

Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.

São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.

Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.

Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:

“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.

Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.

O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.

Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.

Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”

O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”

Painel de Nilton Bravo no Bar Jobi, Leblon.
 Nilton Bravo na Literatura:

A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:

A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.

18.6.17

D. Pedro I em Santa Cruz


Aquarela de Debret sobre a Fazenda de Santa Cruz, pintada em 1817 do Morro do Mirante.
Um pouco da rotina do imperador D. Pedro I na Fazenda de Santa Cruz, que daria origem ao bairro carioca de mesmo nome.

Se o príncipe regente D. João se apaixonou por Santa Cruz, transformando a antiga sede da fazenda dos jesuítas em Palácio Real, seus descendentes também seguiram o antigo Caminho dos Jesuítas para se afastar dos problemas da Corte e viver mais à vontade.

O filho, o futuro D. Pedro I do Brasil, e Pedro IV de Portugal, por exemplo, talvez tenha sido mais assíduo ao palácio que seu pai. Na infância passada no velho oeste carioca, Pedro, revelando a vocação de líder militar, organizava exércitos de brincadeira, com regimentos de escravos, meninos como ele, munidos com “armas” feitas de madeira e folhas-de-flandres. Exército pronto, organizava acirradas batalhas pelos campos de Santa Cruz contra o irmão D. Miguel, antecipando a guerra que travariam em Portugal, entre 1832 e 1834, e que faria de D. Pedro um herói naquele país, após ter abdicado do trono do Brasil, em 1831.

Mais tarde, já adulto e imperador do Brasil, D. Pedro iria muito a Santa Cruz seguido de fiéis escudeiros, como Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, seu secretário particular e, segundo as más línguas, “secretário para os negócios ocultos do Brasil e de Portugal” (D. Pedro I, Isabel Lustosa). Na longa viagem pela Estrada Real, provavelmente o príncipe vislumbrava as possibilidades que se abriam, de romper com Portugal e ser responsável pelos destinos da imensa nação que o acolhera.

Exímio cavaleiro, muitas vezes Pedro partia montado em um dos muitos cavalos que mantinha bem tratados na fazenda, dispensando carruagens luxuosas. Cavalgava rápido, tanto que, em algumas vezes, ia e voltava no mesmo dia a Santa Cruz, como na ocasião em que foi à fazenda apenas para dar uma chicotada no marido de sua amante Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos – uma situação tão absurda que beira o cômico.


Mesmo perdendo a marquesa para D. Pedro I, o marido, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, não apenas se submeteu à nova ordem, como se humilhou pedindo um cargo ao Imperador, que o nomeou, em 1824, administrador da feitoria de Periperi, parte da Fazenda de Santa Cruz, e que ficava em numa área coberta hoje pela estrada Rio-São Paulo, na altura de Itaguaí.

Periperi possuía diversas lavouras e um famoso engenho produtor de aguardente. O motivo da desavença entre o administrador e o Imperador foi uma carta injuriosa sobre a marquesa, enviada por Felício ao irmão de Domitila, que a mostrou ao Imperador. Mal acabou de ler, D. Pedro subiu em seu cavalo e atravessou a Estrada Real de madrugada, em meio a uma forte tormenta. Ao chegar à sede da feitoria, entrou gritando, chamando pelo administrador, para espanto dos escravos, que nunca imaginariam a chegada do Imperador do Brasil àquela hora e naquela situação. Quando deparou com Felício, D. Pedro, sem dizer nada, “desferiu rápida e forte ‘rebencada’ na face do perplexo ‘desafeto’ e, considerado ‘cumprido seu dever’, imediatamente regressou à Quinta da Boa Vista, aonde chegou ao amanhecer”. (Santa Cruz, Jesuítica, Real, Imperial – Vol. III, Benedicto Freitas).

Felício não apenas aguentou calado a humilhação, como ainda permaneceu um bom tempo como administrador da feitoria, mas, desta vez, bem mais comportado, pois D. Pedro o ameaçou com uma contundente surra, se não deixasse de ofender a marquesa, esposa de Felício e amante de Pedro.


Ao chegar a Santa Cruz, pode-se dizer que D. Pedro ficava como “pinto no lixo”, ou seja, sentia-se completamente à vontade: “Aqui chegados, consideravam-se no Paraíso: passeios sem fim: a Sepetiba, Itaguaí, Pedra de Guaratiba, no mar, nos rios, nos decantados canais com iates e veleiros neles deslizando, caçadas e rodeios e, à noite, música na Imperial Capela e nos salões do Palácio, onde também se realizavam animadas partidas de bisca, jogo preferido do monarca” (Santa Cruz, Jesuítica, Real, Imperial – Vol. III, Benedicto Freitas).

Em Santa Cruz, D. Pedro, mesmo já imperador, despia-se das sofisticadas e imponentes vestimentas da nobreza, e usava trajes de homem do campo: calça e camisa de algodão, bota quase sempre enlameada e chapéu de palha, como autêntico caipira. Ocorreu muitas vezes de receber ministros de importantes Cortes europeias de chinelos no Palácio, com a maior sem-cerimônia. “Conta o Marquês de Gabriac – embaixador da França no Brasil entre 1820 e 1829 – que, visitando D. Pedro, em Santa Cruz , em 22 de outubro de 1827, encontrara-o em seu salão de despachos jogando bisca com um camarista e o cirurgião do Paço” (Livro D. Pedro I, de Isabel Lustosa).

Para aproveitar bem a vidinha na roça, repleta de ar puro, água limpa, fartos cozidos (seu prato preferido na fazenda) e muito verde, D. Pedro gostava de acordar bem cedo, “quando o galo cantava”, e seguia irremediavelmente a mesma rotina. Fazia a revista dos escravos, fiscalizava o rebanho, os engenhos, as pontes e as obras de drenagem e contenção das águas, ordenava novos plantios, mandava fazer reparos nos prédios da fazenda e ia caçar com espingarda capivaras e outros animais em abundância às margens do rio Guandu, isso bem antes que o “progresso” expulsasse a fauna e a flora para o pouco que restou da Mata Atlântica naquela região.

Obs: a sede da fazenda que aparece na aquarela acima, hoje é o Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita e está muito bem conservado. Fica perto da Estação de Trem. Para quem vê a novela Novo Mundo da Rede Globo de Televisão esse texto serve como uma boa dica para saber mais sobre alguns dos personagens.


Texto de André Luis Mansur Baptista.
Autor do livro "O Velho Oeste Carioca". Volumes I, II e III.   Editora Ibislibris.

Um livro que reúne excelente material de pesquisadores da Zona Oeste do Rio de Janeiro, e apresenta uma visão global da região que se estende desde o Campo dos Afonsos até Sepetiba, percorrida pela antiga Estrada Real de Santa Cruz, citada nos livros de História do Brasil pela invasão de piratas franceses em Guaratiba, em 1710, e as longas temporadas de D. João na antiga fazenda dos jesuítas, no início do século XIX. André Luis Mansur Baptista nasceu em 1969 e formou-se em jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1993. Tem dois livros publicados: Supéravit, o herói brasileiro e Manual do Serrote, ambos de ficção. Mantém o blog Emendas e Sonetos, onde publica excertos sobre curiosidades do Rio de Janeiro.

Por onde eu passo, todo mundo me conhece


Dotado de um talento artístico que se manifestou desde a infância, Mestre Saul é um destaque da região, na pintura e na escultura, e conta aqui um pouquinho de sua caminhada sofrida e vitoriosa.

Ainda garoto, ali pelos 7 ou 8 anos, Saul da Silva Pinheiro fazia música batucando em latas de graxa, desenhava com lascas de carvão e repetia em pensamento um desejo: “Quando crescer eu quero ser artista. Famoso, de valor”. Corria a década de 40, e a infância difícil do menino criado em meio a quatro irmãs, com mãe costureira e separada de um PM atormentado por problemas mentais, não dava indicativos de que o sonho se realizaria. Hoje ele é o Mestre Saul, artista plástico com quadros e esculturas espalhados por todo canto do Brasil — incluindo um busto de Zumbi dos Palmares numa praça de Brasília — mas mantendo forte vínculo com a Zona Oeste do Rio, onde nasceu e voltou a morar depois de “andar por aí”.

A arte sempre foi um dom. E era com facilidade que ele conseguia tirar som de qualquer objeto, captar novos ritmos ou mesmo inventar instrumentos musicais, assim como desenhar, pintar e esculpir. “Na escola, eu me sentava na última fila, pra ninguém me incomodar. E ficava lá, desenhando…”, conta Mestre Saul. A admiração e o amor que tinha pelo pai quase o fizeram seguir a carreira militar, mas a consciência do quanto a brutalidade da profissão teve parte nos problemas psicológicos do PM bastou para matar a ideia, embora seu alvo fossem as bandas militares.

Nos anos 50, Saul estudou pintura com o professor Daniel Diniz da Fonseca em Campo Grande — na União Rural de Belas Artes (Urba) — e mais tarde aprendeu escultura na Escola Nacional de Belas Artes. Sempre cavando a oportunidade: “Eu passava pela Urba e admirava aquele professor de boina, com suas cartolinas nas mãos. Um dia perdi a timidez, entrei e perguntei se podia estudar lá. Ele disse: traz bloco de desenho e lápis amanhã. Foi assim que eu comecei a estudar arte”, lembra Mestre Saul, que anos mais tarde aplicou a mesma estratégia na Escola Nacional de Belas Artes.

Conseguir viver da arte, porém, não foi fácil. Ele encarou todo tipo de trabalho para se sustentar (vendedor, ourives, gráfico), enquanto continuava pintando, esculpindo e tocando os ritmos cubanos que o seduziam. Integrou a orquestra Ivo Fontes e seus Melódicos, tocou com o saxofonista Booker Pittman, viveu a boemia ao lado de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves… Boemia que hoje lembra com nostalgia, mas também com certa amargura: “Eu bebia demais, e olhando para trás vejo que perdi muito por causa disso”.

Mestre Saul trabalhou na Editora Bloch (primeiro na linha de produção da gráfica, depois restaurando negativos de fotos para a Revista Manchete), transferiu-se para a Abril, em São Paulo, e viveu longo período em Embu das Artes, onde exerceu mais intensamente as atividades de pintor e escultor. Voltou ao Rio nos anos 70, teve ateliê próprio, deu aula de arte em muitas escolas e enveredou por outras carreiras como a de cenógrafo e carnavalesco. Sempre fazendo arte.

Quando pergunto quantos quadros e esculturas assinou, o mestre faz um gesto de “impossível saber”, mas garante que foram centenas. Presenteados ou vendidos por quantias muitas vezes simbólicas: “Nunca fui vendedor de arte, tinha prazer de fazer quando a pessoa pedia. Sou muito mais artista do que comerciante”. Aos 76 anos, o veterano artista vive hoje numa modesta casa em Guaratiba, onde continua pintando: prepara uma série de quadros sobre a história de Campo Grande e Santa Cruz, para uma exposição.

E a fama que tanto buscava? “Fui saber agora que sou famoso. Por onde eu passo, todo mundo me conhece. Acho que só agora vi tudo o que já fiz”, filosofa o artista, admirando um retrato que pintou do botânico Freire Alemão. E revela mais um desejo: quem sabe, um dia, reunir em exposição parte de sua obra que está espalhada por aí, em casas, prédios, coleções particulares?

Texto de Tania Neves
emfoco@feuc.br
Fonte: 

Projeto original do Palácio de Santa Cruz. Rio de Janeiro - RJ.

Assim como publicado na página no dia 05 de Setembro, projeto de autoria do arquiteto inglês John Johnson, contratado no governo do Rei ...